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Tragédia climática no Rio Grande do Sul: uma reflexão sobre o uso e ocupação do solo

Tragédia climática no RS é a maior da história (Crédito: Diego Vara/Agência Brasil)
Tragédia climática no RS é a maior da história (Crédito: Diego Vara/Agência Brasil)

A recente tragédia climática no Rio Grande do Sul, com suas inundações devastadoras, serve como um alerta urgente sobre as consequências nefastas do nosso modelo de desenvolvimento insustentável, em todos os aspectos: ambiental, social e econômico, mesmo que analisados isoladamente. O impacto em mais de 440 municípios do Estado, com cerca de 70 municípios em estado de calamidade, é reflexo direto da forma como escolhemos ocupar e utilizar o solo.

Nosso modelo de desenvolvimento tem como base o desmatamento, seja para expansão da agricultura ou da urbanização. Essa prática, combinada com a impermeabilização do solo nas áreas urbanas, cria um ciclo vicioso que agrava os efeitos das chuvas. Ao removermos a cobertura vegetal, diminuímos a capacidade do solo de absorver água, fazendo com que ela escoe rapidamente pelas superfícies impermeabilizadas, aumentando o volume e a velocidade das enxurradas. A movimentação rápida de grandes massas de ar, causada pela evaporação rápida de água, somada à ausência de florestas, que funcionariam como quebra-ventos, pode provocar correntes de convecção violentas, com formação de tornados, como vimos no RS.

As áreas de preservação permanente, como topos de morro, encostas, margens de rios e áreas de nascentes, são naturalmente propensas a deslizamentos ou alagamentos. No entanto, a ocupação irregular dessas áreas, impulsionada pela falta de planejamento urbano e políticas públicas adequadas, as transforma em zonas de alto risco.

Mudanças climáticas: um fator agravante

Nosso modelo agrava o efeito das mudanças climáticas e as mudanças climáticas intensificam ainda mais o cenário de risco, em um círculo vicioso. O resultado é o aumento da frequência e intensidade das chuvas extremas, tornando as áreas de risco ainda mais vulneráveis e elevando o potencial de desastres naturais.

As soluções passam pela mudança de paradigmas e por políticas públicas eficazes. O mais difícil é convencer os gestores e empresários a mudar o modelo, tanto de produção agrícola quanto de urbanização.

P1ara evitar tragédias como a do Rio Grande do Sul, é necessário uma mudança radical em nosso modelo de desenvolvimento. Precisamos investir em soluções que promovam a infiltração da água no solo, como a restauração florestal e a adoção de práticas agrícolas sustentáveis. Nas áreas urbanas, o planejamento urbano deve ser reformulado para evitar a ocupação de áreas de risco e garantir a permeabilidade do solo. Para isso, além das áreas protegidas urbanas, temos também alternativas de pavimentos permeáveis.

As políticas públicas desempenham um papel crucial na proteção ambiental e na mitigação dos impactos das mudanças climáticas. É fundamental fortalecer a legislação ambiental, garantir a efetiva fiscalização e combater a flexibilização das leis ambientais.

Responsabilidade compartilhada

A crise climática é responsabilidade de todos, não apenas do governo. Cada cidadão pode contribuir para a mudança através de escolhas conscientes, como a redução do consumo, a valorização da natureza e o apoio a políticas públicas que promovam a sustentabilidade.

A tragédia recente no Rio Grande do Sul é um chamado urgente para a ação imediata. Não podemos mais tolerar justificativas baseadas na redução da área produtiva, nas dificuldades de mecanização ou na necessidade de crescimento urbano. A hora de agir é agora.

Quanto ao custo dos investimentos, investimos em uma série de infraestruturas, como estradas, pontes, canais, barragens e diques. É ilógico que queiramos economizar em alternativas realmente eficientes para evitar desastres ambientais. É fundamental investir no meio ambiente, na criação de praças, na proteção de florestas, tanto rurais quanto urbanas, na renaturalização de rios, na preservação de áreas de proteção permanente e na criação de corredores ecológicos.

É evidente que as soluções mais eficazes para prevenir desastres como o que estamos testemunhando no Rio Grande do Sul não são apenas obras de engenharia, mas sim a implementação dessas tecnologias simples e sustentáveis. Portanto, é imprescindível investir agora na mudança do modelo de uso e ocupação do solo, visando garantir a qualidade de vida para todos.