Pecuaristas levam desenvolvimento dos territórios para o centro de sua agenda

Grupo apresentou propostas focadas no desenvolvimento da pecuária territorial, segurança jurídica e valorização da cultura rural brasileira. Foto: Divulgação / Vozes da Pecuária
Grupo apresentou propostas focadas no desenvolvimento da pecuária territorial, segurança jurídica e valorização da cultura rural brasileira. Foto: Divulgação / Vozes da Pecuária

Segurança jurídica, infraestrutura, sucessão, mercado, crédito e valorização ambiental estão entre os temas levantados pelos próprios produtores e debatidos em Brasília

Os pecuaristas decidiram falar por si. Um movimento iniciado há dois anos e que ganhou corpo no último ano passou a organizar produtores de diferentes regiões para que eles próprios identifiquem de forma sistematizada os problemas de seus territórios, discutam soluções e levem suas posições diretamente aos espaços de decisão. Sem transferir a terceiros a tarefa de dizer o que acontece dentro e fora das propriedades, o Vozes da Pecuária estruturou uma rede de embaixadores territoriais que está em uma nova etapa, a de apresentar a agenda local para governos, mercado e sociedade. O marco se deu em 10 de setembro, quando consolidaram as agendas em evento realizado em Brasília.

Nos últimos 120 dias, entre maio e agosto, essa mobilização avançou sobre dez territórios. Rodas de conversa realizadas em sindicatos, fazendas e comitivas reuniram pecuaristas para aprofundamento sobre o que efetivamente limita o desenvolvimento da atividade em cada região. Entre os principais temas estão a insegurança jurídica, deficiência de infraestrutura, desincentivo à sucessão e manutenção da família no campo; falta de crédito específico, assistência técnica deficitária, necessidade de valorização do serviço ambiental e desenvolvimento de mercados.

O processo seguiu uma metodologia comum aos dez territórios, permitindo que realidades muito diferentes fossem analisadas a partir de uma mesma estrutura. Diagnósticos, dados territoriais e escutas com produtores foram sistematizados para identificar desafios, oportunidades e responsabilidades e, posteriormente, colocados lado a lado. A padronização permitiu comparar as diferentes “pecuárias” sem apagar as particularidades de cada território.

Os pecuaristas foram chamados a reconhecer problemas, discutir responsabilidades e pensar soluções a partir de três frentes: o que cabe ao próprio pecuarista e o que precisa avançar na relação com governos e com o mercado, isso sem perder de vista os impactos para a sociedade.

Em uma leitura rápida, muitos tópicos parecem os mesmos em todo o Brasil, porém, basta olhar com mais atenção para perceber a riqueza das particularidades territoriais. Infraestrutura pode significar dificuldade de escoar produção pela falta de uma ponte e, em outra região, a infraestrutura reflete na dificuldade para a chegada de insumos que seriam destinados a um projeto de melhoria de pastagem para captação de carbono. No caso da sucessão, a dificuldade pode ser a decisão do filho de assumir a propriedade, mas também, em outro território, a falta de escola e posto de saúde para que uma família de trabalhadores permaneça no campo.

Especificidades como essas levaram a constatações como: tecnologia e assistência técnica são importantes, mas sua falta de disseminação não se explica sozinha. As escutas encontraram produtores que conhecem tecnologias, querem produzir melhor e sabem o que poderiam fazer, mas encontram dificuldades estruturais para assumir o risco do investimento.

As apresentações confirmaram a tese inicial do movimento de que a pecuária não é única. Os integrantes do Vozes da Pecuária assumem que o Brasil conta com diversas “pecuárias”. Ela está em áreas alagáveis, regiões de fronteira, locais com forte presença da agricultura e outros distantes dos principais mercados. Clima, logística, estrutura fundiária, acesso à indústria e presença do poder público mudam de um lugar para outro e interferem na forma como cada produtor trabalha.

No Pantanal, as condições para permanência das pessoas e da cultura pantaneira ganharam peso. Educação, saúde, estradas e oportunidades para as novas gerações foram relacionadas à disponibilidade de mão de obra, sucessão e manutenção da própria cultura ligada à atividade. A extinção da cultura do homem pantaneiro preocupa, seja no estado de Mato Grosso, seja em Mato Grosso do Sul.

No Oeste Baiano, uma agricultura tecnificada, com grande possibilidade de integração em grandes projetos, divide o território com uma pecuária que ainda enfrenta dificuldades de assistência técnica e tem uma média de menos de 100 cabeças. Realidade parecida está no Tocantins, Maranhão e Piauí (Matopiba).

No Corredor do Boi, entre Goiás e Mato Grosso, apareceram questões relacionadas à padronização dos animais, concentração de compradores, formação de mão de obra, infraestrutura deficitária e regulação ambiental. Dentro da porteira também se reconhece que o produtor precisa assumir sua parte na melhoria da eficiência e da gestão. No noroeste paulista, levanta-se a importância de potencializar nicho de mercado e alta produtividade para concorrer com a valorização da terra. Por fim, os produtores do bioma amazônico sofrem com a falta de tecnologia disseminada de forma organizada e sistemática entre os pequenos para que a atividade se consolide como alternativa à abertura de novas áreas. A partir de exemplos como esse fica claro que os pleitos exigem respostas diferentes conforme o território.

É importante considerar que, nessa primeira fase, o Vozes da Pecuária responde por dez territórios, presentes em oito estados. Juntos somam quase 19,130 milhões de cabeças em 640 mil km² de território. A divisão territorial e a nomenclatura são particulares do movimento, definidas a partir da vocação pecuária identificada.

Por outro lado, há questões comuns como as regulamentações ambientais e fundiárias. Produtores relataram demora na análise de processos, divergências de interpretação, dificuldades para regularização e situações em que notificações ou embargos comprometem o acesso ao crédito e a continuidade dos investimentos.

O monitoramento ambiental por tecnologia também entrou no debate. A posição apresentada durante a reunião não foi de rejeição às ferramentas remotas, mas de defesa da combinação dessas informações com verificações em campo, principalmente antes da aplicação de penalidades.

A segurança jurídica não é apenas uma questão legal, mas também econômica. A incerteza aumenta o risco, dificulta a contratação de crédito e pode impedir mudanças produtivas que dependem de capital de longo prazo.

O pagamento por serviços ambientais é um exemplo. A discussão deixa de ficar restrita à ideia de remunerar diretamente quem mantém áreas conservadas. Entre as propostas apresentadas está reconhecer essa conservação em outras condições como linhas de financiamento específicas e aumento de prazos. Com esse raciocínio, mais tempo para pagar um investimento também representa dinheiro em caixa.

Outras propostas sugerem a formação e atração de profissionais; organização de grupos para ampliar poder de negociação e protocolos para atender nichos de mercado. A indústria também foi incluída nessa construção. Qualidade, rastreabilidade, diferenciação e sustentabilidade são demandas que chegam cada vez mais à produção.

Os pecuaristas identificaram que as exigências precisam ser traduzidas em informações claras e também em respostas econômicas. Se o mercado deseja um produto diferente, o produtor precisa saber o que entregar e encontrar condições para fazer essa mudança.

O meio ambiente atravessou os diagnósticos e a principal constatação é de que seu resultado não será isolado das questões econômicas e sociais. Recuperação de pastagens, conservação do solo e da água, biodiversidade, carbono e conservação da vegetação nativa foram relacionados à capacidade de investimento e à permanência das pessoas no campo.

A discussão construída pelos produtores parte da necessidade de reconhecer que melhorar resultados ambientais também exige condições para produzir, investir e manter pessoas nos territórios. A valorização econômica da conservação entra nessa conta como uma possibilidade de aproximar as duas agendas.

O que vem agora? Depois de ouvir, organizar e comparar os territórios, a proposta é envolver mais produtores, priorizar as bandeiras de cada território e transformar os levantamentos em agendas de interlocução com governos, mercado e sociedade.

A comunicação ganhou espaço nesse processo. A percepção apresentada durante o encontro é de que não basta organizar informações se elas continuarem circulando exclusivamente no setor.

O movimento também avança para a criação do Instituto Vozes da Pecuária, com incentivo da organização Terra Adorada. Ele preserva a participação direta dos produtores na definição dos temas e das posições que serão levadas adiante. Com o protagonismo do pecuarista, o objetivo é somar sua voz com entidades ou organizações do agronegócio.

Com essas ações, os pecuaristas querem falar diretamente com a sociedade e estar nos espaços onde são tomadas decisões. Querem contar quem são, como produzem, quais dificuldades encontram e quais soluções estão dispostos a construir. Tudo isso, por sua própria voz.

“Nós, pecuaristas, estamos dispostos a transformar. Temos o conhecimento necessário e a experiência para contribuir e encurtar caminhos. Precisamos estar presentes nos ambientes onde se comunica e onde se define a pecuária”, afirma Raul Moraes, pecuarista e integrante do Comitê Gestor do Vozes da Pecuária.

Por sua vez, Luciana Barbetta, Diretora Executiva da Terra Adorada, sustenta: “Não é só um trabalho de escuta e de articulação, mas também um empenho para chegar a resultados. Queremos contribuir para ampliar o impacto que vocês podem ter. Queremos ampliar essa voz”.

“O pecuarista precisa ter um plano de produtividade que possa seguir com clareza. Quem não utilizar as tecnologias disponíveis vai ser empurrado para fora”, conclui Ricardo Junqueira, pecuarista e embaixador territorial Corredor do Boi.