O avanço do plantio da safra de verão e a recuperação das cotações em commodities chave traçam o cenário produtivo brasileiro. A distribuição irregular das chuvas e as incertezas no comércio internacional exigem gestão de risco rígida dos produtores
O mercado do agronegócio brasileiro atravessa um período marcado pelo contraste entre a recuperação das condições operacionais no campo e a persistência de incertezas nos cenários climático e internacional. A consolidação do fenômeno El Niño acentuou os padrões regionais de precipitação pelo país. Enquanto o Sul registra chuvas frequentes que chegam a ultrapassar os volumes ideais e atrapalhar os trabalhos de campo, a faixa ao norte vivencia condições mais secas. O Centro-Oeste permanece em uma zona de transição. O retorno gradual das precipitações entre o fim de setembro e início de outubro permitiu o avanço da semeadura e trouxe umidade às culturas perenes. No entanto, a distribuição irregular das chuvas segue como ponto central de atenção para a consolidação da safra de verão e a janela de segundo cultivo. A informação é da análise Agro Mensal Consultoria Agro Outubro 2026 do Itaú BBA.
No complexo soja, o mercado do agronegócio acompanha a aceleração do plantio nacional, que atingiu 15,6% da área prevista até 9 de outubro. O ritmo foi impulsionado por Mato Grosso, onde a semeadura saltou de 10,2% para 33,3% em uma semana. Em Sorriso, a média de preços da soja alcançou R$ 142 por saca em setembro, alta de 9,6% em relação a agosto, alinhada à valorização na Bolsa de Chicago (CBOT), onde o primeiro vencimento atingiu média de USD 13,04 por bushel (avanço de 8,7%). O movimento foi sustentado pelas compras chinesas da safra norte-americana 2026/27, que somaram cerca de 13 milhões de toneladas até o final de setembro, além do atraso na colheita dos Estados Unidos, realizada em 25% da área até 5 de outubro. O relatório de outubro do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) projetou a produção de soja dos EUA em um recorde de 124,1 milhões de toneladas, mantendo a estimativa para o Brasil em 186 milhões de toneladas e as exportações brasileiras em 118 milhões de toneladas.
Nas commodities de proteína vegetal e óleos, o farelo de soja apresentou expressiva valorização em setembro, liderando o desempenho do complexo. A média em Rondonópolis atingiu R$ 1.929 por tonelada (+13,3% no mês), e na CBOT chegou a USD 356 por tonelada curta (+12,4%), impulsionada pela demanda por ração e pela menor disponibilidade na entressafra brasileira. As exportações brasileiras de farelo acumularam 20,2 milhões de toneladas de janeiro a setembro, avanço de 11,7% na comparação anual. No mercado de óleos vegetais, o USDA reduziu a estimativa de produção de óleo de palma da Indonésia em 2,2 milhões de toneladas, para 45 milhões de toneladas na safra 2026/27, em decorrência da seca prolongada. Essa quebra na oferta indonésia tende a direcionar a demanda global para substitutos como o óleo de soja.

A trajetória do milho no mercado do agronegócio registrou forte alta em setembro. O primeiro vencimento na CBOT subiu 11,2%, com média de USD 5,21 por bushel, refletindo o corte na produção norte-americana e riscos logísticos no Mar Negro. Em Sorriso, o cereal avançou 14%, cotado em média a R$ 54 por saca. Contudo, os embarques brasileiros do grão somaram 15,5 milhões de toneladas entre fevereiro e setembro, queda de 21,5% em relação ao mesmo período de 2025. Na atualização de outubro, o USDA revisou a produção de milho dos EUA para 407,3 milhões de toneladas e elevou os estoques finais do país para 47 milhões de toneladas, aumentando a relação estoque/uso para 11,3% e sinalizando maior concorrência para as exportações brasileiras.
O balanço global do algodão mantém um déficit estrutural projetado, com o consumo mundial (26,8 milhões de toneladas) superando a produção (25,7 milhões de toneladas) em aproximadamente 1,1 milhão de toneladas na safra 2026/27. Em Nova York, a fibra recuou 5% em setembro, para a média de USDc 80,8 por libra-peso, diante de compras cautelosas. Em Rondonópolis, os preços avançaram 2,1%, para R$ 3,99 por libra-peso, sustentados pelo câmbio e pelos embarques recordes do Brasil, que encerraram o ciclo 2025/26 em 3,4 milhões de toneladas. Em Mato Grosso, a área destinada ao algodão de segunda safra deve crescer cerca de 4% em 2026/27.
No cereal de inverno, a colheita do trigo brasileiro alcançou 40,3% das áreas, com atenção voltada aos impactos do excesso de umidade no Sul sobre a qualidade industrial do grão. No cenário internacional, as incertezas no escoamento do Mar Negro oscilaram os preços em Chicago, fechando o trigo soft em USDc 671 por bushel. Na Argentina, principal fornecedor do Brasil, 91% das lavouras apresentavam condição hídrica adequada ou ótima no início de outubro, prometendo elevada disponibilidade exportável. Já no arroz, o plantio da safra 2026/27 atingiu 23,6% da área nacional, enquanto a saca de 50 kg no Rio Grande do Sul passou de R$ 79,44 em 10 de setembro para R$ 82,85 em 9 de outubro. As vendas externas acumuladas de março a setembro somaram 1,15 milhão de toneladas em base casca (+23,2% ante 2025).
A pecuária de corte registrou recuperação nas cotações em setembro e início de outubro. O boi gordo em São Paulo subiu 9,3% entre o fim de agosto e 9 de outubro, alcançando R$ 376 por arroba no mercado físico. A alta ocorreu a despeito do recuo temporário das compras chinesas em setembro, mês em que o Brasil exportou 195 mil toneladas de carne bovina in natura (queda de 38% ante setembro de 2025), com aumento nos envios para os EUA (44 mil toneladas). Na B3, os contratos futuros para entrega a partir de novembro se aproximaram de R$ 400 por arroba. O spread dos frigoríficos no mercado doméstico recuou para 2,1% na parcial de outubro.
Nas proteínas monogástricas, o frango inteiro congelado em São Paulo alcançou R$ 8,40 por quilo em 13 de outubro. O spread da agroindústria evoluiu de 32% para 37% em setembro. As exportações da ave no mês somaram 487 mil toneladas (+4% ante setembro de 2025). Projetos para o fechamento do ano indicam produção inspecionada de 15,3 milhões de toneladas (+7%) e exportações de 5,8 milhões de toneladas (+12%). Na suinocultura, a meia carcaça no atacado paulista acumulou alta de 40% entre o fim de agosto e 13 de outubro, atingindo R$ 10,10 por quilo, enquanto o suino vivo subiu para R$ 6,55 por quilo. Apesar da reação, o spread do produtor permaneceu negativo em setembro, resultando em prejuízo de R$ 207 por animal terminado, evoluindo de -36% para -14% na parcial de outubro.
Nas culturas perenes, o café arábica em Nova York (contrato dezembro/26) encerrou o dia 9 de outubro em USDc 286,95 por libra-peso, em ambiente de forte volatilidade. O indicador Cepea para o arábica no mercado físico brasileiro recuou 6% em 30 dias, fechando a R$ 1.531 por saca. Os embarques de café verde em setembro somaram 3,9 milhões de sacas (+20% ante 2025). Para a safra 2027/28, as projeções do USDA indicam produção global de 190 milhões de sacas, com a safra brasileira estimada em 71,9 milhões de sacas.
Na citricultura, a primeira estimativa do USDA para a safra 2026/27 na Flórida prevê a colheita de apenas 10 milhões de caixas de laranja, queda de 23% frente ao ciclo anterior, devido ao encolhimento da área produtiva para 51,3 mil hectares e aos impactos do greening e geadas. No Brasil, as exportações de suco de laranja somaram 96 mil toneladas em equivalente FCOJ em setembro (+78% frente a agosto), somando 225 mil toneladas no primeiro trimestre da safra 2026/27. A fruta destinada à indústria em São Paulo caiu para R$ 29,62 por caixa de 40,8 kg.
No setor sucroenergético, o açúcar NY (vencimento março/2027) ultrapassou 21 cUSD por libra-peso, impulsionado por fundos especulativos e pelas chuvas atípicas do El Niño no Centro-Sul brasileiro, que limitaram a moagem da 1ª quinzena de setembro a 30,2 milhões de toneladas de cana e a produção de açúcar a 2,1 milhões de toneladas. Na Índia, os estoques finais em 30 de setembro caíram para 3,8 milhões de toneladas, e o USDA reduziu a safra local para 29,5 milhões de toneladas. O etanol hidratado nas usinas paulistas atingiu R$ 2,64 por litro na semana encerrada em 9 de outubro. O mercado acompanha os desdobramentos da desoneração federal sobre a gasolina, vigente até 9 de novembro. Por fim, nos insumos, a ureia subiu para USD 470 por tonelada CFR Brasil devido aos custos de frete e petróleo acima de USD 100 no Oriente Médio, enquanto o MAP recuou para USD 830 por tonelada e o KCI para USD 355 por tonelada.