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Cenário dos laticínios no Brasil e o peso de Minas Gerais no início de 2026

A cadeia láctea nacional inicia 2026 em ritmo de acomodação e com forte queda na renda do produtor rural. Diante desse cenário de transição, Minas Gerais sustenta seu peso estrutural no setor enquanto o mercado monitora os custos e o clima

O mercado de lácteos no Brasil iniciou o ano de 2026 em um claro movimento de transição. Após um período de forte expansão na oferta ao longo de 2025, o primeiro trimestre deste ano sinaliza uma acomodação no ritmo de produção industrial e na captação de matéria-prima. É um cenário de reequilíbrio entre a oferta e a demanda, mas que traz alertas importantes para a rentabilidade do produtor rural, pressionada por uma severa queda nos preços reais pagos pelo litro de leite em comparação com o ano anterior. É o que aponta o Observatório da Indústria da FIEMG (Federação das Indústrias de Minas Gerais), na edição deste mês.

A análise aprofundada dos dados oficiais do IBGE, Cepea e Caged, compilados pela publicação da FIEMG, revela a radiografia de um setor essencial para a economia e para a segurança alimentar do país, destacando a liderança incontestável e a força estrutural de Minas Gerais.

De acordo com a Pesquisa Industrial Mensal (PIM-PF) do IBGE, a produção da indústria de laticínios no Brasil manteve-se estável (0,0%) no primeiro trimestre de 2026 quando comparada ao quarto trimestre de 2025 (na série com ajuste sazonal). Se o confronto for feito com o mesmo período de 2025, o setor ainda acumula uma alta de 4,8%. No entanto, o indicador acende uma luz amarela: a atividade fabril nacional do setor permanece 12,1% abaixo do patamar pré-pandemia (tendo como referência o 4º trimestre de 2019).

Quando olhamos para o campo, os dados da Pesquisa Trimestral do Leite mostram que a absorção de matéria-prima recuou no curto prazo. No Brasil, foram adquiridos 6.781,0 milhões de litros de leite cru no trimestre, o que representa um recuo expressivo de 8,0% em relação ao trimestre imediatamente anterior (quarto trimestre de 2025). Em Minas Gerais, a captação somou 1.673,3 milhões de litros, uma queda mais branda, de 3,4%, na mesma comparação.

… perda de fôlego na oferta de leite cru está diretamente associada à redução da rentabilidade do produtor nos meses anteriores, um fator que limita investimentos e desestimula a expansão da atividade leiteira

Apesar dessa retração conjuntural frente ao fechamento de 2025, o volume captado ainda é superior ao do primeiro trimestre do ano passado: alta de 2,6% no Brasil e de 1,6% em Minas Gerais. A indústria nacional demonstrou altíssima eficiência de absorção, industrializando 6.775,2 milhões de litros no país (1.671,3 milhões em solo mineiro).

Essa perda de fôlego na oferta de leite cru está diretamente associada à redução da rentabilidade do produtor nos meses anteriores, um fator que limita investimentos e desestimula a expansão da atividade leiteira.

O bolso do produtor sentiu o peso do excedente de oferta herdado do fim de 2025. No primeiro trimestre de 2026, o preço real médio do leite cru pago ao produtor (com valores deflacionados pelo IPCA de março/2026) fixou-se em R$ 2,29 por litro em Minas Gerais e em R$ 2,26 por litro na Média Brasil. Embora a variação em relação ao trimestre anterior (quarto trimestre de 2025) tenha sido de leve baixa (-0,4% em MG e -0,1% no BR), a comparação interanual (primeiro trimestre de 2026 contra primeiro trimestre de 2025) revela um tombo severo de 22,7% no estado e 21,8% no país.

No mercado atacadista, os derivados lácteos começaram a desenhar um movimento de acomodação e acomodaram-se de formas distintas no curto prazo (primeiro trimestre de 2026 vs quarto trimestre de 2025). Em Minas Gerais, as quedas de preço no trimestre restringiram-se ao leite pasteurizado (-6,2%) e ao leite UHT (-3,4%), abrindo espaço para leves altas na manteiga (+0,4%), no queijo prato (+0,4%) e no queijo muçarela (+0,6%). Já na Média Brasil, o leite pasteurizado (-3,7%) e a manteiga (-2,6%) registraram as maiores retrações no trimestre, enquanto o queijo muçarela liderou as altas com avanço de 2,4%.

O cenário muda de figura quando olhamos o retrovisor de longo prazo: na comparação interanual (primeiro trimestre de 2026 contra primeiro trimestre de 2025), o recuo é generalizado e muito mais intenso. No atacado mineiro, a principal retração ocorreu no queijo muçarela (-17,7%), seguido da manteiga (-15,8%). Na Média Brasil, os destaques de queda anual ficaram com o leite UHT (-15,3%) e, novamente, com o queijo muçarela (-15,1%).

Estrutura e mercado de trabalho em MG

Se por um lado o cenário de preços desafia as margens, por outro, os dados estruturais consolidados de 2025 reafirmam Minas Gerais como o verdadeiro motor da cadeia láctea nacional. O estado detém uma fatia colossal do setor brasileiro: 23% das empresas de laticínios do país estão baseadas em Minas Gerais (1.590 indústrias de um total de 6.906); 24% dos empregos formais do setor estão em território mineiro (35.952 trabalhadores); e 23% da massa salarial anual da indústria de laticínios brasileira é gerada no estado, movimentando R$ 1,24 bilhão.

No primeiro trimestre de 2026, o estoque de trabalhadores no setor ficou estimado em 35.688 vínculos formais em Minas Gerais e 146.242 no Brasil. O segmento de “Fabricação de Laticínios” é o grande polo empregador, concentrando 82% dos empregos mineiros do setor, contra 68% na média nacional, o que evidencia o nível de especialização e industrialização do estado.

A desaceleração econômica do setor, contudo, impactou o ritmo de contratações. O saldo de empregos formais no primeiro trimestre de 2026 foi positivo, mas menor do que o registrado no mesmo período do ano passado. O Brasil gerou 1.362 postos de trabalho (frente a 2.004 no primeiro trimestre de 2025), enquanto Minas Gerais abriu 529 vagas formais (frente a 680 no primeiro trimestre de 2025).

No cenário internacional, o Brasil manteve sua posição de importador líquido no primeiro trimestre de 2026. Estimuladas no curto prazo por um câmbio favorável às compras externas, as importações brasileiras de lácteos atingiram US$ 265,4 milhões (71.760,4 toneladas ou o equivalente a 584,9 milhões de litros de leite), registrando avanço de 7,0% em valor frente ao trimestre anterior (quarto trimestre de 2025). Por outro lado, as exportações nacionais recuaram 6,4% em valor no mesmo comparativo, somando US$ 36,4 milhões. O principal produto exportado pelo Brasil foi o segmento de sorvetes e suas preparações, representando 38% da pauta do setor (US$ 14,0 milhões).

No ranking dos estados exportadores, São Paulo liderou (US$ 6,9 milhões), seguido por Paraná (US$ 6,9 milhões) e Pará (US$ 6,2 milhões). Minas Gerais ocupou o 4º lugar, exportando US$ 4,8 milhões — o que equivale a 13,1% do total nacional.

A pauta exportadora mineira sofreu alterações importantes: as vendas externas de queijo desabaram 27,6% em valor na comparação com o quarto trimestre de 2025, perdendo o posto de liderança no estado. Com isso, o leite condensado assumiu o protagonismo das exportações de laticínios em Minas Gerais, respondendo por 36% da pauta (US$ 1,7 milhão). Os principais destinos dos produtos lácteos mineiros foram os Estados Unidos (24%), seguidos por Paraguai (13%) e Chile (11%).

As projeções para o restante de 2026 apontam para uma recomposição gradual do equilíbrio entre a oferta e a demanda, diferentemente do descompasso visto no ano anterior. Essa tendência de estabilização deve ser acentuada pela menor disponibilidade de leite no mercado interno devido ao período de entressafra, que se estende de março a outubro.

Dois fatores cruciais demandam a atenção total do produtor e da indústria nos próximos meses:

O fator climático (alerta de El Niño): As análises meteorológicas indicam uma probabilidade elevada de formação do fenômeno El Niño em 2026. Para a pecuária de leite, isso representa um risco duplo: potencial alteração no regime de chuvas das principais bacias leiteiras e pressão sobre os preços dos grãos (milho e soja), elevando o custo da ração e espremendo ainda mais as margens da atividade.

Preços internacionais em alta: Se por um lado o câmbio atual favoreceu as importações no início do ano, a escalada dos preços dos lácteos no mercado internacional tende a encarecer o produto estrangeiro. Isso reduz a competitividade do leite importado no médio prazo, abrindo espaço para uma recuperação gradual dos preços pagos ao produtor nacional.

O ano de 2026 exigirá do produtor leiteiro muita gestão de custos e eficiência técnica. A tendência é de reação nos preços, mas a velocidade e a intensidade dessa melhora dependerão diretamente da disciplina da oferta interna, do comportamento do câmbio e, fundamentalmente, de como o clima impactará a produção de volumoso e grãos no Brasil.