O avanço do produto egípcio com preços abaixo do custo nacional acende alerta para produtores. Minas Gerais lidera o setor e busca estratégias para manter a competitividade da agricultura familiar
O cenário para a importação de morango no Brasil atravessa um período de mudanças profundas, com reflexos diretos nas principais regiões produtoras de Minas Gerais. De acordo com o Sistema Faemg Senar, o volume da fruta trazida do exterior registrou um crescimento de 868% nos últimos anos. Esse movimento é liderado pelo produto originário do Egito, que chega ao mercado brasileiro com valores significativamente inferiores ao custo de produção praticado internamente.
A base dessa expansão comercial reside em um acordo firmado em 2010 entre Mercosul e Egito, regulamentado pelo Decreto nº 9.229 em 2017. O texto previu a redução gradativa de tarifas, mas os efeitos práticos tornaram-se nítidos a partir de 2022. “Com a redução das tarifas, o morango passou a entrar no mercado brasileiro com preços ainda mais competitivos. A partir daí, as importações começaram a crescer de forma significativa”, explica Mariana Moreira Marotta, analista de agronegócio do Sistema Faemg Senar.
A disparidade financeira é o ponto central do debate. Enquanto o quilo do morango para exportação no Egito pode custar aproximadamente R$ 7,50, o custo médio de produção no Brasil gira em torno de R$ 8,50 por quilo. Essa diferença pressiona a rentabilidade do produtor mineiro, especialmente em um contexto de insumos caros e desafios fitossanitários persistentes.
Minas Gerais e os riscos da importação de morango industrial
Como maior produtor de morango da América Latina, Minas Gerais colheu 190 mil toneladas em 2023. A atividade possui um caráter social determinante: 98% dos cultivos pertencem à agricultura familiar, envolvendo 11 mil agricultores. O Sul de Minas, com destaque para Pouso Alegre, lidera o volume produtivo, mas o crescimento das importações em 164% entre 2024 e 2025 no estado gera incertezas.
O segmento mais atingido é o de morango para a indústria, como polpas e sucos, que sofre concorrência direta do item congelado estrangeiro. A agricultora Solange de Oliveira Paiva, que maneja 140 mil pés de morango em Ipuiúna, relata que “o morango de fábrica caiu de R$ 17 no fim do ano passado para cerca de R$ 8 neste ano. Em muitos casos, estamos vendendo praticamente a preço de banana”.
A situação se repete no Campo das Vertentes. Em Alfredo Vasconcelos, onde 75% da população depende da cultura rural, produtores buscam alternativas. Iasmin Ribeiro e Silva, produtora local, afirma que a família precisou mudar o foco após perder espaço no mercado de congelados. “Para escapar dos preços baixos na Ceasa, estamos tentando negociar diretamente com supermercados”, destaca Iasmin Ribeiro e Silva.
O equilíbrio entre a abertura de mercado e a preservação da competitividade nacional permanece como o principal desafio para os players do agronegócio mineiro nos próximos anos.